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Escola Sem Fake News recebe professor da Universidade de VirgĂ­nia para debater impactos da inteligĂȘncia artificial e da desinformação no cenĂĄrio polĂ­tico

Autor do livro “Tecnologia do Oprimido”, professor David Nemer comentou regulação das mídias e o hackeamento da política. Palestra promovida pelo projeto Escola sem Fake News reuniu pesquisadores e estudantes na primeira segunda-feira de maio. 


Professores Marco TĂșlio CĂąmara e David Nemer durante transmissĂŁo da palestra| Foto: Reprodução/YouTube
Professores Marco TĂșlio CĂąmara e David Nemer durante transmissĂŁo da palestra| Foto: Reprodução/YouTube

A relação entre tecnologia, desinformação e democracia foi tema de uma palestra realizada na segunda-feira, 4, dentro do projeto Escola Sem Fake News. O encontro reuniu estudantes e pesquisadores para discutir como as dinĂąmicas sociais e polĂ­ticas influenciam a circulação de conteĂșdos falsos, com foco no papel das plataformas digitais e da inteligĂȘncia artificial, em um contexto marcado pelo calendĂĄrio eleitoral brasileiro. O evento faz parte do Ciclo de Palestras do projeto, que recebe pesquisadores para debater questĂ”es atuais  ligados Ă  educação midiĂĄtica.


O palestrante foi o professor David Nemer, docente associado do Departamento de Estudos de MĂ­dia da Universidade de VirgĂ­nia, afiliado ao Berkman Klein Center for Internet and Society e autor de obras como Tecnologia do Oprimido e Favela Digital. A mediação foi feita pelo professor Marco TĂșlio CĂąmara, integrante da coordenação do projeto e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).


Durante a exposição, Nemer questionou a ideia de que a democracia estaria sendo “hackeada” apenas digitalmente. “As democracias nĂŁo sĂŁo corroĂ­das apenas por tecnologias, mas por coalizĂ”es sociotĂ©cnicas, ou seja, por projetos polĂ­ticos, por infraestruturas econĂŽmicas, por assimetrias de poder, por atores humanos que aprendem a usar essas tecnologias de formas estratĂ©gicas”, destaca o professor.


Ao detalhar como a desinformação circula, o pesquisador destacou o que definiu como “infraestrutura humana”. Segundo ele, conteĂșdos falsos nĂŁo dependem necessariamente de alta sofisticação tecnolĂłgica, mas de redes sociais organizadas para sua disseminação. “HĂĄ um nĂșcleo menor que eu chamo na minha pesquisa de influenciadores, Ă© quem produz a desinformação, que vai eventualmente influenciar os militantes, que replicam, enquadram e distribuem esse material por diferentes grupos e plataformas. É tambĂ©m um trabalho decisivo dos usuĂĄrios comuns que estĂŁo ali nesses grupos, que estĂŁo consumindo essa desinformação, que reencaminham mensagens para o seus cĂ­rculos de confiança”, explica Nemer. 


Ao abordar o papel da inteligĂȘncia artificial, Nemer afirmou que a tecnologia atua como elemento de aceleração de processos jĂĄ existentes. Para ele, ferramentas de IA aumentam a capacidade de produção e circulação de conteĂșdos, potencializando açÔes coordenadas, mas nĂŁo substituem a dimensĂŁo polĂ­tica envolvida nesses fenĂŽmenos.


Outro ponto discutido foi a maior capacidade de engajamento de conteĂșdos baseados em medo e ansiedade. Segundo o pesquisador, mensagens que exploram pĂąnico moral tendem a ter maior circulação nas plataformas digitais, uma vez que geram mais interação. Nemer afirma que esse comportamento Ă© explorado por grupos polĂ­ticos que nĂŁo seguem padrĂ”es de verificação ou responsabilidade informacional.


Nemer tambĂ©m chamou atenção para impactos desiguais da desinformação, especialmente sobre mulheres e grupos vulnerabilizados. Ele citou casos de manipulação de imagens e conteĂșdos com uso de inteligĂȘncia artificial para ataques direcionados, incluindo situaçÔes que afetam jornalistas, pesquisadoras e candidatas. 


Ao final, o professor ressaltou que a democracia deve ser compreendida como uma construção histĂłrica sujeita a conflitos e transformaçÔes: “A democracia nĂŁo Ă© um software condenado a falhar diante de todo novo ataque, ela nĂŁo Ă© um sistema operacional frĂĄgil que desaba no primeiro deep fake, ela Ă© uma construção histĂłrica, Ă© conflitiva, tem imperfeiçÔes, mas ela Ă© aberta Ă  defesa, Ă  reconstrução e ao aprendizado institucional. O desafio do presente Ă© decidir se permitiremos que a polĂ­tica seja subordinada a mercados de atenção, sem infraestruturas, sem transparĂȘncia e com projetos extremistas. E essa decisĂŁo, felizmente, ainda nĂŁo estĂĄ automatizada, continua sendo nossa”, finaliza.


O encontro integrou a programação do projeto Escola Sem Fake News, que promove um ciclo de palestras sobre educação digital, cidadania e os efeitos da circulação de informaçÔes no ambiente online. O projeto é uma parceria entre a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a UFT e o Instituto Federal de Alagoas (IFAL), visando promover educação midiåtica e enfrentamento à desinformação.


 
 
 
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